Razão 1: Não há como adaptar

Qual o motivo? Porque nunca conseguirão adaptar. Especialmente em um único filme. E se formos mais longe, veremos que a transposição perfeita de uma mídia para a outra seria impossível de ser 100% fiel. Porém, acreditamos que uma adaptação digna seria obtida com uma série de filmes, ou ainda, uma mini-série, onde poderiam desenvolver um pouco melhor o que fez de Watchmen tão surpreendente e fabuloso: os personagens e suas histórias. Ainda assim, faltaria um pouco para transmitir aquilo que nos quadrinhos Alan Moore conseguiu de maneira tão espetacular.

Entendam que nós não estamos dizendo que qualquer coisa que fizessem com Watchmen seria um lixo total. Não mesmo! O que acontece é que não dá para espremer toda a série de estórias dessa graphic novel em duas, três horas que sejam. Para se captar a menor fração do espírito desta deveria-se fazer uma série de filmes, como foi feito com Sr. dos Anéis, ou vocês ficariam satisfeitos vendo a trilogia de Tolkien ser espremida em 3 horas de filme?

Quanto a uma mini-série de TV, por exemplo, poderia-se chegar perto do que a obra de Alan Moore e Dave Gibbons é. E ficaríamos satisfeitíssimos com isso, pois, em uma série seria possível desenvolver os personagens e seus conflitos; suas histórias. O foco na ação ficaria em segundo, terceiro, quarto plano, algo que não há como ocorrer em um filme onde o climax deve ser rapidamente alcançado para não chatear o público – principalmente um filme hollywoodiano, onde efeitos especiais estão cada vez mais importantes do que as interpretações, o que nos levará ao próximo motivo.

Do IMDB:

Terry Gilliam: (http://imdb.com/name/nm0000416/bio)

Foi cogitado para escrever e dirigir uma adaptação cinemetográfica para a Grapihic Novel de Alan Moore e Dave Gibbons “Watchmen”. Terry Gilliam disse que tentou escrever um roteiro preciso mas seria infilmável, porém, ele dirigiria se fosse feito em um série de TV a Cabo de 10 ou 12 episódios.”

 

Razão 2: Watchmen não é Homem-Aranha

Homem-Aranha e Watchmen são quadrinhos. Homem-Aranha também tem personagens que sofrem de conflitos. Homem-Aranha possui várias histórias e ainda assim temos 3 filmes razoáveis e que conseguiram capturar o espírito da Saga do Aranha. Por que, então, isso não ocorreria com Watchmen, ainda mais levando-se em conta que o Homem-Aranha existe a muitos e muitos anos?

Simplesmente porque se tratam de tipos de quadrinhos totalmente diferentes. Enquanto Homem-Aranha é centrado em um único personagem e seus conflitos, Watchmen não possui o foco em diversos personagens. Além disso, os dilemas de Paker foram desenvolvidos ao longo de anos, praticamente em segundo plano, enquanto os vilões e os problemas de conciliar a identidade secreta e o seu alter-ego são o que realmente o preocuparam. O foco nos quadrinhos do aracnídeo está no que acontece, nas batalhas, em andar na teia pelos arranha-céus – não no o que faz Peter Paker ser Homem-Aranha, e não estamos falando de “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. E, como já foi dito, porque Homem-Aranha possui anos e anos de história, a única forma de você conseguir transcrever para o cinema é realmente capturando um mínimo da revista. Mas isso só funciona pelos motivos citados.

Enquanto isso, Watchmen, como um livro, é uma estória fechada, e em estórias fechadas você possui o desenvolvimento completo de trama e personagem. Não há espaços para “capturar a essência e criar em cima”. Você deve, no mínimo, ser fiel com os personagens e fazer pequenas adaptações à trama para que ela se encaixe no formato de cinema. E deve-se fazer com cuidado. Muito cuidado. De preferência se você tiver o aval ou for quem criou a obra original (vide: O Guia do Mochileiro das Galáxias e Sin City). E Watchmen não possui o aval de Alan Moore. Watchmen não está sendo escrito junto ou por ele. Logo…

Ei, mas e 300? Bem… digamos que o foco de 300 é nos combates. E olha que já ouvi comentários de pessoas não-radicais dizendo que não gostaram de 300 porque não existe o espírito de “porque estamos lutando” que existe na HQ! Imagina, então, o que o mesmo diretor está para fazer com Watchmen?

Homem-aranha, o filme, é aquele tipo que se encaixa no gênero de entretenimento familiar, o que significa que você vai compartilhar a experiência do herói; no momento ruim você vai ficar triste e vai batalhar até chegar a parte boa, que termina com a família e os amigos reunidos saboreando a vitória e confirmando o ditado: “No final tudo acaba bem. Se as coisas vão mal é porque ainda não terminou”.

Bom, se Watchmen tivesse um ditado ele seria: “No final tudo acaba bem. Se as coisas vão mal é porque provavelmente você estava errado sobre tudo acabar bem”. Watchmen é uma obra niilista, materialista e cínica.

Agora segue a descrição de uma pequena lógica capitalista/mercadológica.

-Pessoas investem centenas de milhões de dólares em filmes que vão render centenas de milhões de dólares.

-Filmes que atraem muitas pessoas GANHAM centenas de milhões de dólares.

-Filmes que não atraem pessoas NÃO ganham centenas de milhões de dólares.

-Muitas pessoas (a maioria) não pagam pra ver filmes niilistas, materialistas e cínicos.

 

Então: um filme que custa centenas de milhões de dólares não pode ser niilista, materialista e cínico.

 

Razão 3: A quem pertencem as obras?

Um autor cria uma obra de arte, ela é distribuída (ou exibida) e ela se espalha na mente das pessoas, algumas ainda irão se tornar fãs.

Agora, a quem pertence à obra? Ao autor que a criou, à empresa que detém os “direitos de distribuição/edição”, ou aos fãs/público?

Essa é uma questão teórica e, assim sendo, eu posso dizer que todas as respostas são verdadeiras.

Do ponto de vista empírico (de quem tem realmente poder sobre a obra), que nesse caso seria o ponto de vista legal, a obra é de quem tem os direitos de distribuição/adaptação que podem fazer o que quiserem com ela. Mas vamos analisar uma situação que demonstra como uma obra de arte, e mais especificamente as estórias, são diferentes de outros produtos.

Imagine que alguém detivesse os direitos sobre Romeu e Julieta. E se essa pessoas decidisse mudar o final da peça. Me arrisco a dizer que todos iriam contra, afinal, a obra é de Shakespeare, quem tem o direito de alterá-la? Agora, imagina que o próprio Shakespeare (se estivesse vivo hoje), depois de todo o reconhecimento da obra, decidisse, ele mesmo, mudar o final? Já fica um pouco mais complicado de dizer, mas sinceramente, ele não pode simplesmente pegar algo que milhões de espectadores/leitores conhecem e mudar isso. Romeu e Julieta com novo final não seria mais Romeu e Julieta, mas uma nova versão da original, ou seja: Depois de pronta, depois de lida e amada pelas pessoas, o autor, ou os donos legais da idéia podem fazer o que quiserem, a estória que conhecemos vai sempre ser a original.

O que me parece claro aqui é que quando falamos de direitos sobre a obra, falamos da matéria; o livro ou película, e nesse caso, inquestionavelmente, ela pertence ao detentor dos direitos autorais (cujos direitos foram comprados do autor, o detentor original). Mas a parte transcendente da arte, a estória, a memória, o tema, as emoções, ou seja, quando falamos de material intelectual, emocional e estético, a obra pertence aos leitores.

Essa vídeo abaixo traz essa discussão aplicada à filmes, à “director’s cut”, mas é a mesma questão.

George Lucas criou Han Solo, mas depois de exibido, Han Solo é uma entidade com vida própria. Então que direito tem George Lucas de mudar a personalidade dele?

Watchmen é uma obra de Alan Moore e Dave Gibbons. A DC Comics (a qual pertence ao grupo Time Warner) comprou os diretos deles e agora pode fazer o que quiser com o livro. A Warner comprou os direitos de adaptação e contratou Zack Snyder e companhia pra fazer um filme, mas:

Que direito tem Zack Snyder de alterar Walter Kovacs?

Que direito tem Zack Snyder de re-interpretar Dan Dreiberg ou Edward Blake?

Razão 4: Watchmen é uma adaptação

O projeto de levar os quadrinhos de Moore e Gibbons para as telas é uma idéia que já nasceu errada. A concepção de se transpor do papel para a película mais uma obra literária é, talvez, o maior equívoco de todos. O cinema norte-americano tem se mostrado cada vez mais sem criatividade e banal. Os últimos grandes filmes foram adaptações, continuações, refilmagens, refilmagens de adaptações, continuações de adaptações, refilmagens que viraram franquia, biografias, inspirações em acontecimentos reais.

A idéia de termos mais uma adaptação nas telas não é agradável. Já nos cansamos de ver filmes achando que são estórias novas e nos deparar com “based on …”. E isso é algo frustrante. Na nossa concepção, quando as pessoas vão ao cinema ou alugam um filme elas esperam encontrar algo novo, sem que exista uma obra anterior ao filme. Pelo menos, é o que queremos. Mas talvez seja mais fácil, ou barato, pegar uma obra já consagrada em algum nicho e jogá-la para a “telona”, arrancar mais alguns dinheiros desses pobres fãs e fazer milhõezinhos sem ter que gastar os miolos criando algo. Sem contar que não adaptar histórias evitaria os cansativos diálogos com fan-boys defendendo e comparando a obra original com o filme. Fora que eles adaptam tudo para o cinema. Livros, quadrinhos, séries, peças de teatro, video games, atrações temáticas de parque-de-diversão. Acontece que nem tudo é adaptável.

Não queremos ir ao cinema ver mais uma adaptação. Queremos novidades. Ainda bem que existem os cinemas nacional e europeu, né?

 

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